Resenha | Cisne Negro

Olá caros leitores do blog Experienciando – ou meros curiosos de passagem. Chrystian aqui. Depois de muito tempo desde a minha última postagem, minha análise sobre o filme Drive (2011) e após muito tempo fora por questões pessoais fico grato por poder finalmente voltar e retomar gradualmente minha atividade neste querido site. Em meio à rotina caótica do cotidiano de todos nós fico feliz por compartilhar minha visão sobre um dos meus hobbies favoritos, senão O Favorito, que é o mágico mundo da mais hipnótica das artes: O Cinema.

Verborragias à parte eu gostaria hoje de trazer um pouco da minha perspectiva sobre a película Cisne Negro (Black Swan, 2010), do diretor Darren Aronofsky, cineasta que em 19 anos de carreira não produziu muito, mas nos honrou com filmes aclamados pelo público e pela crítica como Fonte da Vida (The Fountain, 2006), Requiém Para Um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) e seu mais recente filme, a superprodução Noé (Noah, 2014).

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Sobre o filme em questão, meu objetivo de hoje é o de apresentar uma abordagem um pouco diferente – ou talvez nem tanto – das que costumam ser produzidas nos diversos blogs e sites especializados onde foram postadas críticas sobre a mesma. O que quero dizer é que não tenho como fim aqui ir de contra a todas as interpretações freudianas acerca da identidade da personagem, ou da falta de identidade.Suas angustias, seus anseios, seus desejos reprimidos, sua relação quase de total e absoluta submissão com a mãe, a encarnação do seu superego.

Nada disso é meu objetivo. Existem muitas e muitas analises sobre a psicologia empregada no filme que fazem um estudo da personagem muito melhor que o que eu poderia fazer. Porém, não seria menos que leviano se eu dissesse que minha proposta não tange a esses temas. Tange sim à eles, mas dentro de uma perspectiva um tanto quanto material.

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Me proponho então nesta breve análise à interpretação da função do espelho ao longo da obra; esse item praticamente onipresente em todas as cenas e que é responsável pelas maiores impressões do psicológico e emocional da personagem ao longo da história. Através dos espelhos presenciamos todos os acontecimentos que ocorrem ao redor de Nina, nossa bailarina protagonista afortunada pelo papel principal de uma famosa obra do balé.

Aliás, vale antes uma ambientação da bailarina e, como o filme inteiro se passa pela ótica de Nina (Natalie Portman), essa ambientação também vale como sinopse. Nina é quase uma bailarina por obrigação. Criada sozinha pela mãe – de quem herdou a profissão -, vive para pôr em prática os caprichos da mesma e seguir adiante a carreira interrompida pela gravidez. Sua relação com sua mãe é de total subserviência. Nina vive de forma infantilizada, em meio à bichinhos de pelúcia, caixinhas de música e outras decorações dignas do quarto de uma menina de 7 anos. Sua privacidade é inexistente e assim como sua vontade, seus desejos são tão reprimidos quanto poderiam ser. Porém, essa relação mãe-filha está para ser perpetuamente abalada assim que Nina é selecionada pelo diretor da companhia da qual faz parte (Thomas Leroy, vivido por Vincent Cassel) para interpretar o que provavelmente seria o melhor papel de sua vida.

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Nina é escolhida para fazer parte da reencenação de Lago dos Cisnes e escolhida como a estrela da obra. A princípio, um papel que caberia perfeitamente para Nina – dada sua disciplina e técnica inigualáveis dentre suas colegas – se seu papel fosse somente o do Cisne Branco. Porém, em vista dos problemas supracitados, acabam por lhe faltar a desenvoltura, a luxúria e sedução que caracterizam o Cisne Negro.

Para alcançar tal ideal ela terá que transcender seu próprio auto controle na busca do seu próprio Cisne Negro, de uma outra faceta de si, e exteriorizá-la num processo de transformação intensa necessário para cumprir com louvor seu papel. Thomas vê o potencial existente na jovem e a pressiona para arrancar dela sua melhor performance, quase que num fetiche de controle e instigação.

Sua busca incessante pela perfeição, seu auto controle e disciplina excessiva são expressadas não só nas cenas como nos próprios diálogos do filme. Percebemos que justamente que o conceito de perfeição da bailarina está pautado na imagem de controle, disciplina, delicadeza, técnica que ela demonstra a outros e especialmente a si mesma, todas as vezes que se olha no espelho e em todas as vezes em que é assistida. E não são poucas as vezes em que isso ocorre.

Logo nas primeiras cenas Nina se alonga em frente à um deles. A preocupação com a perfeição da imagem e a identidade formada por ela que é o ponto central do filme se mostra de cara. Entre o interessantíssimo diálogo no camarim sobre o fim da carreira da bailarina veterana Beth MacIntyre (Winona Ryder) e o fim do balé como um todo e a escolha da nova musa da companhia vemos um embate entre diferentes gerações, sai o velho, entra o novo. A pressão continua a mesma, a imagem idem.

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Logo ela está fazendo o teste para a Rainha dos Cisnes e sua dificuldade com o Cisne Negro fica clara. O peso de trazer à tona um personagem muito além da própria realidade é um obstáculo a ser superado e a coloca um passo atrás da imagem de perfeição que a bailarina almeja. Seu desespero passa a se transformar em paranoia quando ela falha em interpretar o trecho do Cisne Negro e a partir daí temos o primeiro contato com as alucinações da bailarina, que com certeza não melhoram ao longo do filme.

Logo após o teste na volta pra casa Nina passa por um corredor estreito e vê uma mulher de longe que é nada mais nada menos do que ela mesmo – vestida de preto, cabelos soltos, olhar desafiador. O que poderia ser um jogo de espelhos é mais real do que parece.

No dia seguinte apesar do desespero Nina descobre que o papel da Rainha dos Cisnes é dela. A escolha do papel ao invés de trazer o alívio e felicidade esperados trás um maior desespero sobre as costas da então nova musa da companhia. Seu pânico aumenta quando descobre que a recém chegada Lily (Mila Kunis) pode entrar em seu lugar em caso de algum imprevisto. “Em caso” é o suficiente pra despertar em Nina uma situação de pavor ainda mais profunda. Logo Nina estaria formalmente sendo apresentada como a nova estrela numa festa da companhia e ali enfrentaria duas facetas diferentes de suas projeções de perfeição: Uma sua rival e possível substituta Lily, em quem enxerga de imediato uma melhor opção principalmente no papel do Cisne Negro – nela sobra a luxúria, a astúcia e a emoção que falta em Nina.

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Lily é o Cisne Negro que Nina deveria ser, ela é a perfeita projeção de perfeição necessária para o segundo personagem. A perfeição “humana”, emotiva, que se entrega e se deixa levar pelos próprios instintos. A segunda faceta das projeções é a já mencionada Beth, a bailarina veterana por quem Nina nutre um profundo respeito pelo seu trabalho de tantos anos, e que agora é deixada de lado, vítima do algoz voraz que é o tempo.

A decadência do velho em prol do novo é fortificada com a notícia de que Beth tinha sido atropelada por um carro no dia anterior. Nina vai ao hospital visitá-la movida pela culpa e pelo apreço à figura da veterana mas foge ao encarar os graves ferimentos na perna de Beth. Os treinos puxados, a pressão sobre Nina, as investidas do professor para que ela perca o controle – um jogo de sedução que inclui sua insistência em que Nina liberte o Cisne Negro e se solte completamente – contrasta com a relutância dela em deixar isso acontecer.

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A culpa, sua dificuldade de representação e seus impulsos mais obscuros vindo à tona tudo de uma vez. Cada vez mais a pura e inocente Nina vai cedendo lugar ao Cisne Negro; e ele não vai demorar a aflorar. Seu sonho erótico com Lily  – sua própria imagem no rosto a atormenta e literalmente a sufoca -, o contraste constante e a perca de identidade da personagem quando se vê refletida no espelho se torna cada vez mais forte.Seu reflexo a mutila, perturba. Seu reflexo que não lhe obedece. Sua face no corpo de Lily se “libertando” com Vincent, se punindo mortalmente com a lixa ao olhar para Beth. A dissociação é evidente.

O momento da apresentação é agora. Os músicos já tocam, os outros bailarinos já dançam preparando a entrada do Cisne Branco. Até que ele entra para encontrar com seu amado, o Príncipe. Triunfante, ganha seu coração na sua primeira dança – bem sucedida afinal. Mas é nos bastidores que ele é ludibriado pelo seu gêmeo lascivo, sua rival o Cisne Negro. Na próxima dança um erro grave, e seu amado é tirado de si, ela é arrastada pelo mal, personificado no feiticeiro Rothbart que nesse momento da peça lança seu feitiço, o fim do primeiro ato.

Na volta para o seu camarim ela se encontra com o Cisne Negro. O medo de perder o papel a consome e a transforma. O pináculo de seu conflito interno ocorre, e é com o próprio espelho que ela dá um fim a sua angústia. Nina Perfura a si mesma; enfia um pedaço do seu reflexo dentro de si; o mesmo reflexo rebelde e violento que amedrontou o Cisne Branco que reinava em seu lugar agora toma conta. O Cisne Negro surge.

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Sedutor, audacioso, confiante, Nina está transformada, incorporada. As penas lhe brotam do corpo e agora, asas arrastam toda uma multidão hipnotizada por cada gracioso movimento seu. Os aplausos de pé para a graciosidade do Cisne Negro envaidece-o. Ele é perfeito. O Cisne Branco comete erros, não merece os aplausos e menos ainda o amor do Príncipe. É o fim do segundo ato.

No último ato Nina percebe sua alucinação – ao retomar o controle, o Cisne Branco percebe que as coisas não são mais como antes. Não há tempo, o Cisne Branco deve entrar em cena, e ela, assim como seu personagem, conhece o final da história. Ela volta ao palco como quem dá adeus à todos os que a levaram ali e se atira à beira do precipício.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

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Com atuações excepcionais, um enredo cativante, diálogos capazes de deixar o espectador instigado e tão apreensivo quanto a protagonista, Cisne Negro é a epítome da alegoria do artista obcecado. Natalie Portman nos entrega uma bailarina excepcional cuja profundidade e dissociação é objeto de análises muito mais elaboradas do que esta de hoje – e não é por menos.

  •  “- Eu senti…
  •  – O que?
  •  – Perfeita…
  •  – Eu fui perfeita!”

Vou ficando por aqui, caros leitores. Espero que tenham curtido a resenha e nós vemos no próximo post. Ah, é claro: não se esqueçam de curtir a página do Facebook , se inscrever no canal do YouTube pra não perder nada dessa nova fase do blog!

Resenha por Chrystian Figueiredo

Edição por Josuá V. Nobre

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Um comentário sobre “Resenha | Cisne Negro

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